Significado do cordeiro de Pessach
Considerando conhecimentos místicos da cabalá judaica e considerando conhecimentos de Jung, como podemos interpretar o cordeiro de Pessach que foi pedido por Iud Hey Vav Hey - Adonai, na saída de mitzraim?
I - Na Cabalá: o cordeiro aponta para a retificação da consciência (Tikun)
O cordeiro e o Egito (Mitzraim), que significa estreito, aperto, de forma simplista, possuem profundos significados, a depender da interpretação de cada um.
Em hebraico, mitzraim (מִצְרַיִם) vem de meitzarim = "estreitamentos", "limites". Não significa um lugar apertado, pode ser entendido como uma realidade de apertos, pressões, estreitos de possibilidades, de liberdades.
Na leitura cabalística, o Egito não é só um lugar geográfico. É um estado de consciência aprisionada: pelo medo, pelo hábito, pela idolatria, pela dependência externa. É o "ego escravo", que limita as decisões de uma pessoa e ainda não está submisso à neshamá.
No Egito antigo, o cordeiro era uma das divindades existentes, juntamente com outras como: Boi Apis, o Sol, etc. O carneiro/carneiro-água (Áries) era símbolo de poder divino Amon-Rá.
Ou seja, o cordeiro era um ídolo egípcio, possuía poderes a ele atribuídos, pelo menos nas mesmas das pessoas.
Quando Iud-Heh-Vav-Heh pede que Israel: mate o cordeiro, exponha o sangue e coma, Ele estava pedindo a ação consciente das pessoas em destruir, aniquilar a dependência simbólica das forças que os oprimiam.
É um ato de "desidolatria". Na Cabalá, Isso é chamado de בירור (Birur) — separação do sagrado do ilusório.
As Sefirot envolvidas em Pessach estão ligadas a: Chesed (amor/liberdade) Gevurah (ruptura/corte) e Tiferet (harmonia). O cordeiro representa o impulso vital ainda "bruto", instintivo (Yesod/Nefesh). O sacrifício,a elevação desse impulso para Tiferet (consciência). Trata-se de transformar instinto em propósito, ter o domínio das suas próprias emoções e decisões.
II - Do ponto de vista de Carl Jung, o cordeiro de Perssach possui uma representação símbólica do Self sacrificial
O cordeiro é um arquétipo da inocência. Na psicologia, o cordeiro pode representa: vulnerabilidade, pureza psíquica, potencial não integrado, a parte infantil da psiquê.
Podendo ainda ser visto como o "eu ingênuo".
O sacrifício aponta para a morte simbólica do ego infantil. Para Jung, toda individuação exige morte simbólica. O sacrifício do cordeiro representa esta morte. A renúncia ao ego primitivo para nascer um Self mais integrado.
É o momento de transição, da mudança. "Eu não posso mais ser governado pela adaptação passiva."
É a passagem da heteronomia para a autonomia; da dependência para a responsabilidade.
Já o sangue nos umbrais das portas, eram uma marcação do limiar psíquico coletivo.
As portas, umbrais, simbolizam o limite entre inconsciente e consciente. O sangue representa energia vital psíquica e marcar a porta, era uma declaração: "Aqui começa uma nova identidade".
Para Jung, isso é um rito de passagem arquetípico.
A metáfora profunda é: a libertação exige confrontar o próprio ídolo interior que está no controle.
Deus não pede qualquer animal, pede exatamente o símbolo do poder egípcio. Isso significa que somente vamos sair da escravidão quando tomarmos de volta o governo do nosso interior e eliminarmos o poder que nos escraviza.
Em linguagem moderna, o "cordeiro" hoje pode ser: status, aprovação social, vício, medo, ideologia, dependência emocional, identidade falsa. Cada pessoa tem seu "Áries", dentro de si e um dos passos de retificação pessoal, correção do nosso Tikun, é destronarmos esta força que nos domina.
Não é pela violência, mas por decisões firmes, por meio da Guevurá, disciplina.
É um processo que precisa ser conduzido de forma consciente, não é por meio da emoção.
Pessach descreve num nível mais profundo, um drama arquetípico universal do ser humano. O Êxodo inteiro é um mapa psicológico:
Em uma frase: o cordeiro é aquilo que você ama, mas que precisa ser transformado para que você seja livre.